Sardinhas assadas, ó pá!Olá, pessoal,
Estou aqui de volta para mais um pequeno post, mandando mais notícias da minha vida européia (sim, porque acho até injusto dizer que minha vida aqui é lusitana, após tantos cantos visitados) e detalhando um pouco mais da rotina de um estudante brasileiro pelo Velho Mundo.
O tópico de hoje é um tanto quanto especial para mim. Sim, porque como nordestino, paraibano e filho de uma campinense, me acostumei a, todos os anos, freqüentar as festas juninas. E esse ano, não poderia ser diferente. Especialmente após a minha primeira visita à "mui nobre, antiga, sempre leal e invicta Cidade do Porto" (minha favorita em Portugal), quando um de meus amigos lusitanos do norte me fez o convite para retornar na maior das festas de junho. Assim, o fiz.
Posso dizer que para um brasileiro, especialmente um paraibano, curtir essa celebração é necessário desarmar o espírito de expectativas e comparações. Aqui, vai se participar de uma festa tradicionalmente portuguesa. Ou melhor, tradicionalmente do Porto. Com a mente livre de conceitos pré-estabelecidos, se está a participar de uma grande comemoração de rua, extremamente divertida e curiosa; além de ter um sabor de imersão cultural. Há que se lembrar sempre que não é a "nossa" festa, é apenas o mesmo santo. E, se considerar que o que celebramos em nossos festejos, é a parte profana da tradição e, que, sinceramente, nem nos lembramos que é um dia dedicado a um apóstolo, nem mesmo quando repetimos o nome exaustivamente nos nossos vivas, aí sim, ficamos sem nenhuma semelhança. Quer dizer, quase nenhuma.
Aqui também se dança. A festa também é marcada por músicas do interior (no lugar do forró, temos o folclore caipira português). Mas, como tem acontecido no Brasil, outros ritmos adentram a festa. Mas, diferente de nós, que ainda mantemos majoritariamente o nosso forró, o capira tem apenas 40% da playlist da noite. Por se tratar de feriado popular, há vários sítios com diferentes estilos musicais, incluindo música eletrônica. Agora, como em toda farra portuguesa, há música brasileira com certeza. Muita música nossa. Forró e axé tocam seguidas vezes ao longo da peregrinação noturna. Menção honrosa para uma versão portuguesa caipira de um "sucesso" do paraibano Amazan, em que ele declara seu gosto por "mamar nos peitos da cabritinha". Acredite, com sotaque lusitano, consegue ficar bem pior.
Uma frase útil, a ser dita para qualquer um que resolva se aventurar na cidade do Porto na noite do dia 23/madrugada do dia 24 de junho seria: cuidado, cá existem balões. A belíssima e perigosíssima tradição de balões juninos se origina aqui. Os portugueses comemoram assim há séculos e, como Roberto Marinho não decidiu fazer campanha nestas terras, os OVNIS juninos continuam a cruzar os céus patrícios (juro que conseguia escutar a voz do narrador padrão de anúncios de utilidade pública da Globo dizendo "Não solte balão"). Dois momentos perigosos são dignos de nota: um balão se desfez em chamas no ar e quase cai sobre um casal de namorados numa das praças da cidade, a 50m de onde eu estava; outro , não ganhou altura suficiente logo de cara e ameaçou cabeças de pessoas e janelas de casas, antes que uma providencial corrente de ar o fizesse alçar vôo logo.
Quanto ao estilo de curtir a noite na rua, é completamente diferente. Aqui, as pessoas não se encontram em um determinado ponto da cidade onde se concentra a diversão. E, não dura mais que um dia. Tudo começa praticamente a partir do fim da tarde do dia 23, quando as pessoas passam a se reunir para a parte gastronômica do festival. Esqueça o cheiro de comidas de milho no ar, aqui, é sardinha a ser assada na brasa. Sim, os cidadãos do Porto se reúnem, tradicionalmente à beira do rio Douro, e se põem a assar sardinhas e saboreá-las com pão e salada, tomando vinho ou cerveja. E, olha, por mais que o cheiro de sardinhas nos dias normais seja horrível e que as gaivotas que pairam sobre a cidade no dia seguinte também; é delicioso e de fazer água na boca o cheiro das brasas de São João no Porto. E, o sabor, melhor ainda.
A celebração segue e as pessoas se reúnem à meia-noite à beira do Douro para a magnífica queima de fogos de cerca de 30 minutos, que saúda a chegada do dia do santo. É, parece ano novo mais uma vez, com a exceção de que, ao invés de brindes de champagne e abraços fraternos, começou a hora dos martelinhos! Sim, martelinhos de plástico que fazem barulho, como aqueles que damos às crianças durante o carnaval. Alguns, inclusive, têm um apito na fim do cabo. Podem ser comprados em qualquer esquina e um dos jornais, creio que o Diário de Notícias, os fornece como brinde na edição do dia 23. A tradição é a seguinte, deve-se acertar as pessoas com o instrumento medieval na cabeça e, se alguém te acerta, mostra-lhe que o terror vem pelo alto!!! Ou, pelo menos, devolva a marteladinha barulhenta no casco. Há ainda, uma variante, bem menos popular, mas mais tradicional, que é andar com uma planta de alho e esfregar o buquezinho de flores no nariz dos outros. Por óbvias razões, o comercial, menos ecológico, mas muito menos irritante martelinho virou a tradição. Tenho ainda que mencionar os jarrinhos de manjericos, que devem ser oferecidos para as gajas (não, não vou chamar moça de família de você-sabe-o-quê, mesmo que seja assim que eles chamem) de quem se esteja enamorado; costuma-se passar a mão na planta de o jarrinho e cheirar (sim, elas são muito aromáticas mesmo).
Todo esse movimento se dá enquanto se faz uma peregrinação pela cidade. Pode-se fazer o tradicional trajeto da Ribeira, às margens do rio, até o encontro com o mar, sempre parando em vários bares para dançar e tomar um fino (chopp) refrescante ou, seguir para Mira Gaia, a região com vários palcos e tendas, em que se faz praticamente o mesmo trajeto, mas não pelas margens e, sim, por dentro do centro histórico.
Se os pontos positivos vão para a óbvia diversão envolvida e a completa tranqüilidade, livre de brigas, ladrões ou outros tipos de confusões (sem necessidade daquelas filas indianas de policiais passando pela multidão, como vemos na nossa terra, infelizmente), o ponto negativo vai para, mais uma vez, a infra-estrutura capenga da volta para casa. Pouquíssimos táxis, sem horário especial do metro ou dos "autocarros" (ônibus). Por conta disso, tivemos uma caminhada de quase 45 min ladeira acima (1,5Km de subida enladeirada com um ângulo de inclinação nem um pouco favorável a quem acabou de passar 6 horas pulando, dançando e martelando a cabeça dos outros). Mas, enfim, tudo vale a pena, se a vontade de curtir um São João não é pequena.
Abraços!
Estou aqui de volta para mais um pequeno post, mandando mais notícias da minha vida européia (sim, porque acho até injusto dizer que minha vida aqui é lusitana, após tantos cantos visitados) e detalhando um pouco mais da rotina de um estudante brasileiro pelo Velho Mundo.
O tópico de hoje é um tanto quanto especial para mim. Sim, porque como nordestino, paraibano e filho de uma campinense, me acostumei a, todos os anos, freqüentar as festas juninas. E esse ano, não poderia ser diferente. Especialmente após a minha primeira visita à "mui nobre, antiga, sempre leal e invicta Cidade do Porto" (minha favorita em Portugal), quando um de meus amigos lusitanos do norte me fez o convite para retornar na maior das festas de junho. Assim, o fiz.
Posso dizer que para um brasileiro, especialmente um paraibano, curtir essa celebração é necessário desarmar o espírito de expectativas e comparações. Aqui, vai se participar de uma festa tradicionalmente portuguesa. Ou melhor, tradicionalmente do Porto. Com a mente livre de conceitos pré-estabelecidos, se está a participar de uma grande comemoração de rua, extremamente divertida e curiosa; além de ter um sabor de imersão cultural. Há que se lembrar sempre que não é a "nossa" festa, é apenas o mesmo santo. E, se considerar que o que celebramos em nossos festejos, é a parte profana da tradição e, que, sinceramente, nem nos lembramos que é um dia dedicado a um apóstolo, nem mesmo quando repetimos o nome exaustivamente nos nossos vivas, aí sim, ficamos sem nenhuma semelhança. Quer dizer, quase nenhuma.
Aqui também se dança. A festa também é marcada por músicas do interior (no lugar do forró, temos o folclore caipira português). Mas, como tem acontecido no Brasil, outros ritmos adentram a festa. Mas, diferente de nós, que ainda mantemos majoritariamente o nosso forró, o capira tem apenas 40% da playlist da noite. Por se tratar de feriado popular, há vários sítios com diferentes estilos musicais, incluindo música eletrônica. Agora, como em toda farra portuguesa, há música brasileira com certeza. Muita música nossa. Forró e axé tocam seguidas vezes ao longo da peregrinação noturna. Menção honrosa para uma versão portuguesa caipira de um "sucesso" do paraibano Amazan, em que ele declara seu gosto por "mamar nos peitos da cabritinha". Acredite, com sotaque lusitano, consegue ficar bem pior.
Uma frase útil, a ser dita para qualquer um que resolva se aventurar na cidade do Porto na noite do dia 23/madrugada do dia 24 de junho seria: cuidado, cá existem balões. A belíssima e perigosíssima tradição de balões juninos se origina aqui. Os portugueses comemoram assim há séculos e, como Roberto Marinho não decidiu fazer campanha nestas terras, os OVNIS juninos continuam a cruzar os céus patrícios (juro que conseguia escutar a voz do narrador padrão de anúncios de utilidade pública da Globo dizendo "Não solte balão"). Dois momentos perigosos são dignos de nota: um balão se desfez em chamas no ar e quase cai sobre um casal de namorados numa das praças da cidade, a 50m de onde eu estava; outro , não ganhou altura suficiente logo de cara e ameaçou cabeças de pessoas e janelas de casas, antes que uma providencial corrente de ar o fizesse alçar vôo logo.
Quanto ao estilo de curtir a noite na rua, é completamente diferente. Aqui, as pessoas não se encontram em um determinado ponto da cidade onde se concentra a diversão. E, não dura mais que um dia. Tudo começa praticamente a partir do fim da tarde do dia 23, quando as pessoas passam a se reunir para a parte gastronômica do festival. Esqueça o cheiro de comidas de milho no ar, aqui, é sardinha a ser assada na brasa. Sim, os cidadãos do Porto se reúnem, tradicionalmente à beira do rio Douro, e se põem a assar sardinhas e saboreá-las com pão e salada, tomando vinho ou cerveja. E, olha, por mais que o cheiro de sardinhas nos dias normais seja horrível e que as gaivotas que pairam sobre a cidade no dia seguinte também; é delicioso e de fazer água na boca o cheiro das brasas de São João no Porto. E, o sabor, melhor ainda.
A celebração segue e as pessoas se reúnem à meia-noite à beira do Douro para a magnífica queima de fogos de cerca de 30 minutos, que saúda a chegada do dia do santo. É, parece ano novo mais uma vez, com a exceção de que, ao invés de brindes de champagne e abraços fraternos, começou a hora dos martelinhos! Sim, martelinhos de plástico que fazem barulho, como aqueles que damos às crianças durante o carnaval. Alguns, inclusive, têm um apito na fim do cabo. Podem ser comprados em qualquer esquina e um dos jornais, creio que o Diário de Notícias, os fornece como brinde na edição do dia 23. A tradição é a seguinte, deve-se acertar as pessoas com o instrumento medieval na cabeça e, se alguém te acerta, mostra-lhe que o terror vem pelo alto!!! Ou, pelo menos, devolva a marteladinha barulhenta no casco. Há ainda, uma variante, bem menos popular, mas mais tradicional, que é andar com uma planta de alho e esfregar o buquezinho de flores no nariz dos outros. Por óbvias razões, o comercial, menos ecológico, mas muito menos irritante martelinho virou a tradição. Tenho ainda que mencionar os jarrinhos de manjericos, que devem ser oferecidos para as gajas (não, não vou chamar moça de família de você-sabe-o-quê, mesmo que seja assim que eles chamem) de quem se esteja enamorado; costuma-se passar a mão na planta de o jarrinho e cheirar (sim, elas são muito aromáticas mesmo).
Todo esse movimento se dá enquanto se faz uma peregrinação pela cidade. Pode-se fazer o tradicional trajeto da Ribeira, às margens do rio, até o encontro com o mar, sempre parando em vários bares para dançar e tomar um fino (chopp) refrescante ou, seguir para Mira Gaia, a região com vários palcos e tendas, em que se faz praticamente o mesmo trajeto, mas não pelas margens e, sim, por dentro do centro histórico.
Se os pontos positivos vão para a óbvia diversão envolvida e a completa tranqüilidade, livre de brigas, ladrões ou outros tipos de confusões (sem necessidade daquelas filas indianas de policiais passando pela multidão, como vemos na nossa terra, infelizmente), o ponto negativo vai para, mais uma vez, a infra-estrutura capenga da volta para casa. Pouquíssimos táxis, sem horário especial do metro ou dos "autocarros" (ônibus). Por conta disso, tivemos uma caminhada de quase 45 min ladeira acima (1,5Km de subida enladeirada com um ângulo de inclinação nem um pouco favorável a quem acabou de passar 6 horas pulando, dançando e martelando a cabeça dos outros). Mas, enfim, tudo vale a pena, se a vontade de curtir um São João não é pequena.
Abraços!

3 comentários:
Mais uma vez me divirto com seus comentários sobre as peripécias de um nordestino em terras lusitanas! a festa deles é muuuuuuuito diferente das nossas!
=)
Bjão
p.s: espero q vc e Lu estejam se divertindo muito!!!!
Vai postar nessa budega mais não? =D
Luv ya'
Então, o morfético não deixou eu botar meu nome.
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