sexta-feira, 8 de abril de 2011

Só Rio





E, eis que, pela primeira vez, o Brasil é bem retratado por Hollywood. Após décadas a fio, nosso país somente aparecia nos filmes americanos, como um lugar sujo, predominantemente coberto pela Selva Amazônica, com feras gigantes que assombravam a nossa população semi-arborícola ou uma republiqueta latina, tomada por guerrilheiros; isso quando não nos colocavam a falar espanhol. Curiosamente, no ano em que Obama, o presidente americano cuja história de concepção se mistura intrinsecamente com um filme de grande sucesso internacional ambientado na Cidade Maravilhosa (o célebre, mais internacionalmente que nacionalmente, é verdade, Orfeu Negro) visita o Brasil pela primeira vez, surge um filme de Hollywood sobre a mágica cidade que, pro bem e pro mal, é o cartão-postal mais famoso de nosso país no exterior.

Rio é sublime. É um filme de um dos maiores estúdios de animação dos EUA, a Dreamworks, e junta toda a pujança tecnológica característica do cinema americano à vivência íntima com a cidade, que só poderia vir de um brasileiro, ainda por cima, de um carioca, o brilhante Carlos Saldanha, diretor da trilogia Era do Gelo. Somente com um brasileiro à frente do processo criativo, poderíamos ter o resultado fantástico que se impõe à tela. Rio, inclusive, é um dos poucos casos de filme em que acredito que o uso do 3D faz realmente um impacto na experiência de assisti-lo, ao invés de simplesmente um recurso para distrair uma história pobre, como tem-se visto na maioria dos lançamentos em três dimensões. A história, inclusive, é excelente. Os personagens são tão cativantes e interessantes como os das melhores produções da Disney, e todos têm um sabor bem brasileiro. O casamento de cores profusas de nossas aves, da Marquês de Sapucaí no desfile de carnaval, as tomadas aéreas e vistas panorâmicas da orla e morros cariocas dão a impressão de se assistir uma pintura em movimento, artes plásticas e primeira grandeza sendo realizadas na tela. Destaco especialmente o vôo de asa delta em que o casal de araras protagonistas passa pelo Cristo Redentor e as cenas movimentadas por entre as ruelas de uma favela carioca. A cereja do bolo fica por conta da brasileiríssima trilha sonora produzida pelo pianista Sérgio Mendes, que parece reviver, na era dos filmes digitais, a magia dos musicais Disney, com uma interação em que a música se torna a verdadeira narradora da história, como só a música brasileira poderia fazer numa história sobre o Rio de Janeiro.

Finalmente, temos uma visão do cinema americano sobre o nosso país que é digna de ser mostrada. Curioso, que é a visão de um brasileiro, impulsionada pelos recursos financeiros e audiovisuais gringos. Merece ser assistido em 3D e, embora eu não tenha visto a versão legendada, acredito que as vozes de atores brasileiros, falando português, cai melhor aos nossos ouvidos numa história carioca, que americanos falando inglês imitando esse sotaque; especialmente nas músicas, majoritariamente sambas e bossas novas, que devem ficar um pouco estranhas no original inglês. Curiosidade para o fato de Rodrigo Santoro participar das versões nacionais e original como dublador do ornitólogo Túlio.