domingo, 23 de outubro de 2011

Rafinha Bastos é um idiota. E tem todo o direito de ser.


Rafinha Bastos é um idiota. Ele próprio admite isso. É egocêntrico, agressivo e costuma fazer piadas extremamente ofensivas, seja a mulheres, rondonienses, vítimas de estupro, enfim, qualquer coisa que se mexa, respire e passe pela sua mente na hora de elaborar piadas. Já teve discussões com colegas do CQC, relatadas por ele próprio em entrevistas, em que criticou a qualidade humorística do material de repórteres do programa; seu estilo extremamente agressivo no quadro Proteste Já, levou à sua substituição em matérias de campo. Definitivamente, a maior parte de nós, inclusive aqueles que riem de suas piadas, não  gostaria de tê-lo em seu círculo social. 
Porém, ao mesmo tempo em que multidões pegam em foices, tochas e forcados no momento em que ouvem o nome do humorista gaúcho, um grupo de iguais proporções ri com suas tiradas ácidas e ofensas proferidas em tom humorístico. Não fosse assim, ele não teria sido eleito pelo jornal The New York Times como twitter mais influente do mundo, baseado na quantidade de vezes que seu nome é citado e suas publicações retuitadas no microblog. Logo, chega-se a uma simples conclusão, as idiotices de Rafinha Bastos têm um público consumidor forte. Várias pessoas, idiotas ou não, compartilham ou, pelo menos, divertem-se com seus comentários. E, essas pessoas, têm todo o direito de consumir toda a idiotice que quiserem, venha ela de que fonte vier.
Pessoalmente, costumo filtrar bastante o que o comediante  profere, rindo e me divertindo com algumas coisas e simplesmente ignorando aquilo que considero de mal gosto ou sem graça. Pelo que li, vi e ouvi nas últimas semanas, avalio que uma porção enorme das pessoas faz igual, Na verdade, esse procedimento é, nada mais, nada menos, do que o que qualquer um faz, confrontado com qualquer mídia. Se gosta, consome; se não gosta, simplesmente ignora e, dependendo do grau de incômodo causado, fala mal para quem quiser ouvir. Assim tem sido nos Estados democráticos desde que estes surgiram. E é assim que deve ser numa sociedade civilizada.
Rafinha Bastos tem todo o direito de ser idiota. Wanessa Camargo tem todo o direito de processá-lo e pedir a indenização que achar justa. A Band tem todo o direito de afastar seu funcionário. Os fãs têm todo o direito de exigir sua volta. E esse é o controle social que deve ser exercido sobre a mídia. Por mais que o afastamento só tenha ocorrido porque o marido da cantora é sócio de Ronaldo, que tem poder de influência sobre grandes contratos publicitários da Band e que a retaliação ao humorista tenha se dado, não pela ofensa à mulher grávida e sua criança, mas à "honra" do marido, como ficou bem claro na carta que Marco Luque (garoto-propaganda da Claro e amigo do esposo injuriado) escreveu pedindo desculpas pelo fato. Até porque várias mulheres já foram alvo de comentários do tipo "eu comia" por vários humoristas, inclusive no CQC, inclusive por Luque, fato que é tão machista e hipócrita quanto a piada em si.
Em toda essa história, a única coisa que não pode é o Ministério Público estar alocando recursos de nossos impostos para investigar um humorista que ofendeu uma cantora, justo um que faz parte de um programa que incomoda o Congresso Nacional como "nunca antes na história desse país". Da mesma maneira que a Secretaria de Políticas para Mulheres não tem nada que se meter em propagandas de lingerie ou no enredo da novela das oito e o PT não tem que querer criar órgãos para controlar a imprensa. Somos Brasil, não somos China, Cuba, Venezuela ou União Soviética. Ainda bem.

André F. W. Cavalcanti

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Só Rio





E, eis que, pela primeira vez, o Brasil é bem retratado por Hollywood. Após décadas a fio, nosso país somente aparecia nos filmes americanos, como um lugar sujo, predominantemente coberto pela Selva Amazônica, com feras gigantes que assombravam a nossa população semi-arborícola ou uma republiqueta latina, tomada por guerrilheiros; isso quando não nos colocavam a falar espanhol. Curiosamente, no ano em que Obama, o presidente americano cuja história de concepção se mistura intrinsecamente com um filme de grande sucesso internacional ambientado na Cidade Maravilhosa (o célebre, mais internacionalmente que nacionalmente, é verdade, Orfeu Negro) visita o Brasil pela primeira vez, surge um filme de Hollywood sobre a mágica cidade que, pro bem e pro mal, é o cartão-postal mais famoso de nosso país no exterior.

Rio é sublime. É um filme de um dos maiores estúdios de animação dos EUA, a Dreamworks, e junta toda a pujança tecnológica característica do cinema americano à vivência íntima com a cidade, que só poderia vir de um brasileiro, ainda por cima, de um carioca, o brilhante Carlos Saldanha, diretor da trilogia Era do Gelo. Somente com um brasileiro à frente do processo criativo, poderíamos ter o resultado fantástico que se impõe à tela. Rio, inclusive, é um dos poucos casos de filme em que acredito que o uso do 3D faz realmente um impacto na experiência de assisti-lo, ao invés de simplesmente um recurso para distrair uma história pobre, como tem-se visto na maioria dos lançamentos em três dimensões. A história, inclusive, é excelente. Os personagens são tão cativantes e interessantes como os das melhores produções da Disney, e todos têm um sabor bem brasileiro. O casamento de cores profusas de nossas aves, da Marquês de Sapucaí no desfile de carnaval, as tomadas aéreas e vistas panorâmicas da orla e morros cariocas dão a impressão de se assistir uma pintura em movimento, artes plásticas e primeira grandeza sendo realizadas na tela. Destaco especialmente o vôo de asa delta em que o casal de araras protagonistas passa pelo Cristo Redentor e as cenas movimentadas por entre as ruelas de uma favela carioca. A cereja do bolo fica por conta da brasileiríssima trilha sonora produzida pelo pianista Sérgio Mendes, que parece reviver, na era dos filmes digitais, a magia dos musicais Disney, com uma interação em que a música se torna a verdadeira narradora da história, como só a música brasileira poderia fazer numa história sobre o Rio de Janeiro.

Finalmente, temos uma visão do cinema americano sobre o nosso país que é digna de ser mostrada. Curioso, que é a visão de um brasileiro, impulsionada pelos recursos financeiros e audiovisuais gringos. Merece ser assistido em 3D e, embora eu não tenha visto a versão legendada, acredito que as vozes de atores brasileiros, falando português, cai melhor aos nossos ouvidos numa história carioca, que americanos falando inglês imitando esse sotaque; especialmente nas músicas, majoritariamente sambas e bossas novas, que devem ficar um pouco estranhas no original inglês. Curiosidade para o fato de Rodrigo Santoro participar das versões nacionais e original como dublador do ornitólogo Túlio.