Rafinha Bastos é um idiota. Ele próprio admite isso. É egocêntrico, agressivo e costuma fazer piadas extremamente ofensivas, seja a mulheres, rondonienses, vítimas de estupro, enfim, qualquer coisa que se mexa, respire e passe pela sua mente na hora de elaborar piadas. Já teve discussões com colegas do CQC, relatadas por ele próprio em entrevistas, em que criticou a qualidade humorística do material de repórteres do programa; seu estilo extremamente agressivo no quadro Proteste Já, levou à sua substituição em matérias de campo. Definitivamente, a maior parte de nós, inclusive aqueles que riem de suas piadas, não gostaria de tê-lo em seu círculo social.
Porém, ao mesmo tempo em que multidões pegam em foices, tochas e forcados no momento em que ouvem o nome do humorista gaúcho, um grupo de iguais proporções ri com suas tiradas ácidas e ofensas proferidas em tom humorístico. Não fosse assim, ele não teria sido eleito pelo jornal The New York Times como twitter mais influente do mundo, baseado na quantidade de vezes que seu nome é citado e suas publicações retuitadas no microblog. Logo, chega-se a uma simples conclusão, as idiotices de Rafinha Bastos têm um público consumidor forte. Várias pessoas, idiotas ou não, compartilham ou, pelo menos, divertem-se com seus comentários. E, essas pessoas, têm todo o direito de consumir toda a idiotice que quiserem, venha ela de que fonte vier.
Pessoalmente, costumo filtrar bastante o que o comediante profere, rindo e me divertindo com algumas coisas e simplesmente ignorando aquilo que considero de mal gosto ou sem graça. Pelo que li, vi e ouvi nas últimas semanas, avalio que uma porção enorme das pessoas faz igual, Na verdade, esse procedimento é, nada mais, nada menos, do que o que qualquer um faz, confrontado com qualquer mídia. Se gosta, consome; se não gosta, simplesmente ignora e, dependendo do grau de incômodo causado, fala mal para quem quiser ouvir. Assim tem sido nos Estados democráticos desde que estes surgiram. E é assim que deve ser numa sociedade civilizada.
Rafinha Bastos tem todo o direito de ser idiota. Wanessa Camargo tem todo o direito de processá-lo e pedir a indenização que achar justa. A Band tem todo o direito de afastar seu funcionário. Os fãs têm todo o direito de exigir sua volta. E esse é o controle social que deve ser exercido sobre a mídia. Por mais que o afastamento só tenha ocorrido porque o marido da cantora é sócio de Ronaldo, que tem poder de influência sobre grandes contratos publicitários da Band e que a retaliação ao humorista tenha se dado, não pela ofensa à mulher grávida e sua criança, mas à "honra" do marido, como ficou bem claro na carta que Marco Luque (garoto-propaganda da Claro e amigo do esposo injuriado) escreveu pedindo desculpas pelo fato. Até porque várias mulheres já foram alvo de comentários do tipo "eu comia" por vários humoristas, inclusive no CQC, inclusive por Luque, fato que é tão machista e hipócrita quanto a piada em si.
Em toda essa história, a única coisa que não pode é o Ministério Público estar alocando recursos de nossos impostos para investigar um humorista que ofendeu uma cantora, justo um que faz parte de um programa que incomoda o Congresso Nacional como "nunca antes na história desse país". Da mesma maneira que a Secretaria de Políticas para Mulheres não tem nada que se meter em propagandas de lingerie ou no enredo da novela das oito e o PT não tem que querer criar órgãos para controlar a imprensa. Somos Brasil, não somos China, Cuba, Venezuela ou União Soviética. Ainda bem.
André F. W. Cavalcanti


Um comentário:
ótimo texto... Falou tudo! Adorei! :)
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